
Os efeitos da nova tabela do Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF) de 2026 começam a aparecer já neste mês nos contracheques dos trabalhadores alagoanos. Quem recebe até R$ 5 mil brutos por mês estará totalmente isento do imposto, enquanto aqueles com renda de até R$ 7,35 mil terão redução gradual do tributo retido na fonte.
As mudanças passam a valer para os salários pagos a partir de janeiro, com reflexo nos pagamentos de fevereiro. Ao todo, mais de 139 mil contribuintes no estado devem ser beneficiados, segundo dados do Centro de Estudos Tributários e Aduaneiros da Receita Federal (CETAD), divulgados nessa segunda-feira (2). Até 2025, cerca de 127,2 mil declarantes já estavam isentos; com as alterações, esse número deve subir para 217,6 mil.
O economista Guilherme Lopes, professor da Faculdade de Economia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e pesquisador associado do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), estima que a medida alcance cerca de 93% dos trabalhadores formais em Alagoas, considerando os dados da Receita e o perfil de renda do último trimestre do ano passado, da PNAD Contínua do IBGE.
Consumo imediato e efeito local
Segundo Lopes, o aumento da renda líquida terá impacto direto no comércio e nos serviços locais. Trabalhadores com carteira assinada, servidores públicos, aposentados e pensionistas deixam de ter o desconto do imposto na fonte, ampliando o poder de compra.
“Essa renda extra dificilmente vai para a poupança. Ela é direcionada ao consumo cotidiano: mercadinho, farmácia, escola dos filhos, lazer e cultura”, explica. Para o professor, a desoneração do imposto na fonte se traduz em aumento direto da renda líquida disponível, fator decisivo em economias como a alagoana.
Segundo o especialista, o perfil de renda do estado indica baixa capacidade de poupança e alta propensão ao consumo. “Até 80% dos trabalhadores da economia alagoana recebem até um salário mínimo. Isso revela um grau elevado de pobreza estrutural e um mercado de trabalho pouco dinâmico.”
Nesse cenário, a renda extra tende a circular rapidamente. “Essa sobra adicional no fim do mês dificilmente vai para a poupança. Ela é direcionada ao consumo básico e cotidiano, no mercadinho, na farmácia, na escola dos filhos, no lazer, na cultura”, reforça.
O economista chama atenção para a estrutura produtiva de Alagoas, fortemente concentrada no setor terciário. “Cerca de 70% da economia alagoana é composta por serviços. Então, essa renda adicional derivada da isenção do IR até R$ 5 mil tende a ativar os circuitos do comércio e dos serviços locais”, pontua.
Ainda segundo Lopes, o impacto se espalha principalmente entre pequenos e médios negócios. “O dinheiro vai para o comércio do bairro, para os serviços da cidade. Isso gera um estímulo significativo na economia local, sem necessidade de endividamento das famílias”, observa.
Embora a isenção represente perda de arrecadação direta do imposto retido na fonte, o professor avalia que o efeito é compensado pelo aumento do consumo. “Ao consumir, as famílias pagam impostos indiretos, como ICMS e ISS. Ou seja, deixa-se de arrecadar por um lado, mas há um reequilíbrio pela via do consumo”, explica.
“É uma política muito positiva para economias com alta propensão marginal ao consumo, como a nossa”, resume, destacando que a medida é especialmente adequada às características estruturais de Alagoas.
Mais renda, melhor qualidade de vida
Na prática, a mudança significa mais fôlego no orçamento das famílias. “Antes, a pessoa trabalhava o mês inteiro e já tinha uma parte do salário comprometida com o IR. Agora, esse dinheiro sobra no fim do mês”, resume.
E esse excedente tende a melhorar a qualidade de vida. “Pode ser usado para comprar um remédio, ampliar a cesta básica, pagar o material escolar, ir a um show, ao estádio ou arcar com o aumento do aluguel. Existe uma demanda reprimida muito grande nessa faixa de renda”, afirma.
Para o economista, o efeito final é claro. “Você estimula o circuito da renda local com base no aumento da renda líquida disponível, não no crédito ou no endividamento. Por isso, vejo essa política com bons olhos, especialmente para Alagoas, onde o comércio e os serviços são o coração da economia”.
Avanço importante, mas ainda insuficiente
A redução gradual do imposto para quem ganha até R$ 7.350 é vista pelo pesquisador como passo um relevante, porém limitado. “Não é suficiente para corrigir a defasagem histórica da tabela do Imposto de Renda, mas é um avanço muito importante”, avalia.
O docente lembra que o sistema tributário brasileiro tem raízes na década de 1960 e permanece marcado pela regressividade. “O Brasil arrecada muito sobre consumo e pouco sobre renda e patrimônio. Quem mais paga proporcionalmente são os pobres e a classe média”, critica.
Nesse contexto, a ampliação da isenção é parte de um movimento maior. “A ideia é modificar a pirâmide arrecadatória, direcionando mais impostos para o topo da renda, com tributação progressiva sobre grandes salários e dividendos”, finaliza.
Lei foi sancionada ano passado
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sancionou, em 26 de novembro de 2025, a Lei 15.270, que ampliou a isenção do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) para quem recebe até R$ 5 mil por mês. A medida também prevê descontos para quem ganha até R$ 7.350 mensais e aumenta a tributação sobre rendas mais altas, sendo publicada no Diário Oficial da União no dia seguinte.
Para equilibrar a arrecadação, a norma elevou a tributação sobre pessoas com renda anual superior a R$ 600 mil, atingindo cerca de 140 mil contribuintes de alta renda de forma gradual, com alíquota máxima de 10%. Segundo o governo, a medida não comprometeu as contas públicas, não exigiu cortes de gastos e não interferiu na oferta de serviços à população.

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