O início das férias escolares costuma ser sinônimo de pátios cheios, correrias e gasto de energia. No entanto, na era dos algoritmos e smartphones, o cenário tem mudado drasticamente.
O confinamento digital dentro de casa e o uso excessivo de dispositivos eletrônicos têm imposto uma rotina sedentária que já reflete nos consultórios médicos de Alagoas.
O alerta é da reumatologista pediátrica Clarissa Valões, que aponta um aumento expressivo nas queixas de dores nas costas, pescoço, ombros e joelhos em crianças e adolescentes logo após períodos prolongados de recesso escolar.
Essa realidade ganha contornos ainda mais graves quando associada aos dados estruturais do estado. Segundo levantamentos recentes do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN), Alagoas já registra mais de 100 mil crianças (de 0 a 9 anos) com excesso de peso.
Na faixa etária dos 10 aos 19 anos, o sobrepeso atinge um em cada três adolescentes (30%). De acordo com a especialista, a combinação entre o ganho de peso e o tempo estático diante das telas submete o corpo em crescimento a uma “dupla sobrecarga”, há menos músculos fortalecidos e muito mais peso para as articulações sustentarem.
“O corpo da criança foi feito para brincar, correr e explorar o ambiente. Quando ele passa semanas praticamente restrito às telas, começa a dar sinais de que algo não vai bem”, explica.
Ela esclarece que a infância e a adolescência são fases fundamentais para o desenvolvimento de ossos, músculos e articulações, e que o movimento é o estímulo essencial para esse crescimento saudável.
Sem ele, os jovens desenvolvem fraqueza muscular, encurtamentos e alterações posturais. “Não podemos dizer que toda criança terá um problema permanente, mas já observamos adolescentes apresentando quadros de dor recorrente que antes eram mais comuns em adultos.”
A reumatologista pondera que as dores nem sempre estão associadas a uma doença preexistente, sendo, em sua maioria, o resultado direto de longos períodos sentados em posturas inadequadas.
O perigo reside na cronicidade, segundo ela, hábitos posturais ruins repetidos diariamente por anos podem favorecer deformidades físicas que acompanharão o indivíduo por toda a sua vida adulta.
“Quando falamos em excesso de peso infantil, não estamos tratando apenas de riscos futuros como diabetes e hipertensão, mas sim da saúde das articulações e da qualidade de vida dessas crianças hoje”, enfatiza.
Diante do diagnóstico, o papel dos pais é crucial para identificar quando o incômodo deixa de ser uma “dor de crescimento” passageira.
Segundo a médica, o sinal de alerta máximo para buscar avaliação especializada acende quando as dores se tornam frequentes, chegam a acordar o jovem durante a noite, limitam as brincadeiras cotidianas, fazem a criança mancar ou surgem acompanhadas de febre, inchaço local e perda de peso.
Outro indício preocupante é quando o filho passa a recusar ou evitar atividades físicas que antes realizava com naturalidade.
A solução, contudo, não passa pela proibição radical. Reconhecendo que as telas fazem parte da vida contemporânea, a médica defende o consumo moderado e a organização da rotina para que o lazer digital não ocupe todo o tempo livre das férias.
A diretriz da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda que crianças e adolescentes pratiquem ao menos 60 minutos diários de atividades físicas de intensidade moderada a vigorosa – como caminhadas, andar de bicicleta, dançar ou brincar ao ar livre.
Para os jovens que passam muitas horas jogando ou no celular, a recomendação de ouro é fracionar o tempo estático.
“O ideal é fazer pausas regulares para levantar, caminhar, alongar e mudar de posição. O objetivo nas férias não é necessariamente zerar as telas, mas garantir que elas não substituam a movimentação e as brincadeiras, que são pilares fundamentais para o desenvolvimento saudável”, conclui a especialista.

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